Contexto Geral do Projeto
Este arquivo é contexto técnico-conceitual para agentes de IA. Não é manifesto, não é venda de ideia e não pressupõe concordância. Serve para que o agente entenda o projeto sem precisar ler a fonte completa (rede_civica.md).
Sistema de Unidades Cívicas, Infraestrutura Cívica Digital e Reorganização Institucional
Seção intitulada “Sistema de Unidades Cívicas, Infraestrutura Cívica Digital e Reorganização Institucional”1. Visão geral
Seção intitulada “1. Visão geral”Este projeto propõe um modelo alternativo de organização social e governança, baseado em:
- unidades cívicas territoriais escalonadas
- infraestrutura cívica digital aberta
- transparência radical de processos
- participação cidadã estruturada
- pressão social informada, não coercitiva
- reconfiguração da relação entre Estado, sociedade e empresas
O objetivo não é abolir o Estado, nem criar um Estado paralelo. É reduzir assimetrias de informação, opacidade institucional e intermediação política ineficiente, substituindo parte da coordenação política tradicional por processos rastreáveis, verificáveis e públicos.
O modelo tem 3 pilares interdependentes: unidades cívicas, gestão e organizações. Nenhum funciona isolado.
O modelo é independente do suporte que o executa. Hoje se materializa em software, o Formigueiro: módulos independentes (colônias) processam o mapeamento e produzem dossiês, relatórios, rankings e mapas de ausência, que alimentam a incubadora social e o banco social. São instituições concretas dentro do modelo que operam como fábrica de novas empresas integradas à rede cívica. Sem tecnologia, o modelo funcionaria com papel e pessoas organizadas, cada colônia como empresa socializada processando formulários de demanda de cada unidade cívica. No futuro, outra tecnologia ou processo pode automatizar e melhorar o modelo. O compilado se organiza em três camadas: base teórica (Partes II a IV), base pragmática (Parte V) e base explicativa (apêndices).
2. Ponto de partida e motivação
Seção intitulada “2. Ponto de partida e motivação”O projeto parte de um diagnóstico concreto: o modelo atual de trabalho e distribuição de riqueza mantém as pessoas ocupadas demais para participar, desinformadas sobre o que produzem e o que lhes é retido, e sem tempo de qualidade para vida pessoal ou cívica.
A proposta central é jornada de meio período como norma. O dia tem quatro períodos naturais: manhã, tarde, noite, madrugada. Com trabalho organizado por períodos, há sempre três turnos simultâneos disponíveis. A taxa de emprego sobe por distribuição, não por criação forçada de vagas. A metade liberada do dia é o que torna viável a participação cívica contínua.
Hoje os salários, lucros e destino do excedente são opacos. Ninguém sabe quanto seus pares ganham, quanto a empresa lucra ou para onde vai esse lucro. Trazer isso à tona é o primeiro passo. A visibilidade do excedente é o que torna possível tanto a redistribuição quanto o engajamento.
Mapeamento, redistribuição e reorganização são as três ações base. Esse diagnóstico fundamenta a lógica das empresas, das unidades cívicas e da gestão.
3. Metáfora estrutural (DDD + Hexagonal)
Seção intitulada “3. Metáfora estrutural (DDD + Hexagonal)”Os 3 pilares mapeiam diretamente uma arquitetura de software conhecida:
- Núcleo normativo-social (Domain): define o que é aceitável, quais são os direitos e deveres fundamentais. Não executa, não gerencia orçamento, não contrata. É o núcleo imutável de valores.
- A Gestão (Application — orquestração): ministérios, secretarias, autarquias. Transforma demandas em processos executáveis.
- Adapters (interface com o externo): empresas estatais estratégicas, mercado financeiro, parcerias tecnológicas. Traduzem lógica interna para o mundo e vice-versa sem alterar o núcleo.
4. Estrutura de unidades cívicas (7 níveis)
Seção intitulada “4. Estrutura de unidades cívicas (7 níveis)”Os níveis são definidos por escala populacional e complexidade de demandas, não apenas por nomes administrativos:
- Micro-unidade cívica (quadra, prédio, condomínio, vila)
- Unidade cívica local (bairro, comunidade, povoado)
- Unidade cívica distrital (distrito, região administrativa)
- Unidade cívica municipal (cidade)
- Unidade cívica metropolitana (região metropolitana)
- Unidade cívica regional (macro-região)
- Unidade cívica nacional (país)
A malha territorial mapeia a unidade da federação no nível 5 e a macro-região no nível 6. A unidade cívica metropolitana entra quando houver malha que a represente.
Cada nível possui um conselho de unidade cívica. Demandas são tratadas no menor nível possível e só escalam quando excedem capacidade técnica, financeira ou institucional daquele nível.
A nomenclatura de estrutura operacional segue a estrutura existente no Brasil:
- Níveis 1 e 2: equipes temáticas (saúde, educação, infraestrutura)
- Níveis 3 e 4: podem ter secretarias formais
- Níveis 5 em diante: alinham com estrutura ministerial
O objetivo não é criar nova burocracia de nomes. É profissionalizar a operação e retirar a indicação por apadrinhamento. A cadeia técnica permanece.
5. Conselhos de unidade cívica
Seção intitulada “5. Conselhos de unidade cívica”Natureza
- Não são órgãos de poder
- Não legislam, não executam, não julgam
- Funcionam como órgãos operacionais de acompanhamento e transparência
O conselho existe em todos os níveis da unidade cívica, da micro-unidade ao país. Cada nível tem o seu conselho, com as demandas do seu nível. Além da escalada por capacidade, há demandas que só existem em escala maior: esgoto entre bairros, rodovia entre zonas, trem entre distritos. Elas nascem como pontos soltos inseridos por pessoas de regiões diferentes e são reconhecidas como demanda de nível superior quando o padrão emerge. Demandas sobem com o histórico completo.
O conselho também forma pessoas: cada ciclo entrega à comunidade gente com repertório de processo. O objetivo não é que todos sejam conselheiros, mas que cada micro-unidade tenha pessoas ativas. O mapeamento coletivo depende dessa presença. A comunidade que só espera o poder público resolver, ou que só aparece na urna a cada quatro anos, deixa o território invisível no mapa.
Papel do conselheiro
- Assume uma demanda concreta priorizada
- Atua como relator público do processo: acompanha execução, prazos, entraves e decisões
- Registra tudo de forma rastreável e pública
- É o conselheiro quem inicia operacionalmente a demanda (telefona, protocola, agenda). Se ela se resolve antes, por órgão ou prefeitura, o conselheiro confirma a conclusão e registra como se deu.
Regra central: 1 conselheiro = 1 demanda ativa.
Em situações de crise (enchente, deslizamento, desabastecimento), pode ser acionado por autoridades como referência local para comunicação e distribuição de suprimentos. É função complementar e voluntária. Não substitui Defesa Civil ou equipes de resgate.
Conselheiro não delibera, não negocia, não opina. O cargo não é feito para ser atraente para quem quer poder. É operador de rastreabilidade, não ator político.
O sorteio não elimina a disputa política. A canaliza. A disputa sobre prioridades acontece em parâmetros públicos e trilhas abertas. O sorteio elimina a captura da cadeira, não o conflito. A transparência expõe comportamento, não pessoa.
6. Ciclos de atuação, sorteio e progressão
Seção intitulada “6. Ciclos de atuação, sorteio e progressão”- Ciclo de atuação típico: 18 meses (valor parametrizável)
- Não há eleição nem reeleição automática
- Entrada nos conselhos e alocação de demandas são por sorteio
- Para participar do sorteio do nível seguinte: concluir ao menos um ciclo no nível anterior, estar adimplente, manifestar interesse, completar cursos obrigatórios e passar em prova
Exceção do nível 1: a micro-unidade cívica não exige ciclo anterior. Qualquer morador pode se candidatar, bastando manifestar interesse e completar a capacitação básica. É o ponto de entrada do sistema.
Um ciclo concluído significa ter passado pelo cargo do início ao fim, acompanhado ao menos uma demanda e recebido avaliação sem registro negativo. Um ciclo é suficiente para habilitar o sorteio no nível seguinte. O sorteio em si é o filtro de progressão mais forte — chegar a níveis altos significa ter sido sorteado múltiplas vezes ao longo de anos.
O sorteio ocorre após elegibilidade, nunca antes. Isso cria uma escada de experiência onde ninguém chega aos níveis altos sem ter vivido a base. O sorteio de nível superior é o sorteio para o conselho do nível seguinte. A escada acompanha a natureza das demandas: no alto, o trabalho deixa de ser telefonar para o órgão certo e passa a ser projeto de metrô, rodovia entre zonas, rede de esgoto conectando bairros. Quem acompanha o nível superior recebe demandas com histórico completo e precisa conhecer os níveis anteriores, porque a natureza do trabalho muda com a escala.
O sorteio será estratificado por perfil demográfico (idade, gênero, território, renda), com parâmetros a desenvolver nos módulos de sorteio. A estratificação corrige o viés de auto-seleção. O peso dessa correção é menor do que em cargos decisórios: o conselheiro acompanha demandas, não decide política nem prioridade.
Quantidade de conselheiros por nível não escala linearmente com população, mas com número de demandas simultâneas e complexidade (referência: 2–4 no nível 1 até 9–15 no nível 7).
7. A Gestão
Seção intitulada “7. A Gestão”Terceiro pilar e coração operacional do modelo. Transforma demandas brutas das unidades cívicas em agendas ranqueadas, rastreáveis e executáveis. A instituição que opera o software tem cobertura nacional; o mapeamento profissional e as equipes de campo são implantações específicas por cidade, que se replicam conforme as campanhas.
A Gestão não formula política pública, não legisla, não executa obra e não escolhe agenda por vontade própria. Substitui práticas informais, negociações opacas e mediações políticas invisíveis por processos explícitos, versionados e acessíveis.
Fluxo
Unidades Cívicas + Organizações → captura de dados → Agenda/Pautas/Demandas → Ranking/Votação → Execução → Avaliação/Aprendizado
Priorização
A categorização segue a estrutura dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Agenda 2030/ONU). A organização em níveis reflete precedência de infraestrutura material: determinadas condições são pré-requisito físico para outras (sem água e saneamento não há saúde, sem energia não há educação, e assim por diante). A prioridade de uma demanda não é absoluta. É relativa ao gap daquela unidade cívica. Uma unidade cívica com saneamento resolvido não prioriza saneamento, mesmo sendo nível 1.
A fórmula ordena, a distribuição por decaimento geométrico aloca a capacidade. São operações distintas.
Fórmula: Peso final = Peso nacional do nível × Peso local do gap × Score horizontal da demanda
*1— Peso estrutural nacional: posição do nível na tabela de precedência material. Os pesos são espaçados para que um nível 1 aberto tenda a ocupar as primeiras posições do ranking.*2— Peso situacional da unidade cívica (dinâmico): reflete onde aquela unidade cívica ainda está deficiente. Tende a zero quando o gap está resolvido.*3— Score horizontal da demanda: posição relativa de cada tipo dentro do seu nível (ex: água potável 95, saneamento 85). Partem de estudos de referência, integram o sistema de parametrização e serão calibrados com dados reais. Função: desempate dentro do mesmo nível.
Distribuição por decaimento geométrico (valor inicial de referência, a calibrar com dados reais): a capacidade de conselheiros é distribuída entre todos os níveis com concentração maior no nível corrente e decaimento progressivo para os demais. O fator f (referência: 0,40) define a razão entre fatias de níveis adjacentes. Nenhum nível recebe zero. Quando um nível vence, a distribuição desliza sem salto.
Agregação de demandas
Demandas equivalentes (mesma unidade cívica e categoria, até 500 m de distância, similaridade de texto normalizado de 0,6 ou mais) são sinalizadas como candidatas por heurística determinística. O cidadão confirma uma demanda existente pelo botão de validação social do marcador no mapa ou pela sugestão de candidatas na captura, com presença a até 700 m. O registro de demanda e lugar também exige que o ponto esteja a até 10 km do fix do GPS do dispositivo. Três confirmações de cidadãos distintos, nenhum deles o relator, agregam as demandas sob um representante: a mais confirmada, com desempate pela data mais antiga. Os membros ganham status agregada e saem do mapa, do ranking e do backlog, preservados com timeline e evidências próprias. O agregado conta como uma demanda no ranking, na agenda e no sorteio.
A demanda é objeto coletivo da unidade cívica. O cidadão contribui como relator, confirmador ou autor de evidência. Nenhuma projeção pública expõe autoria: a confirmação aparece apenas como total, a evidência anexada é pública com o mesmo aviso de mídia pública da captura e a coordenada de presença do confirmador nunca entra em projeção.
Conclusão social e artefatos de leitura
A conclusão de uma demanda também passa por confirmação coletiva: quem esteve a até 700 m registra que foi resolvida, com evidência obrigatória. Três conclusões de cidadãos distintos, nenhum deles o relator, confirmam o encerramento. Demanda sem conselheiro ativo conclui direto; com conselheiro sorteado, ele ratifica. Demanda concluída não reabre e problema recorrente vira demanda nova. Para acionar o poder público, o sistema compila dois artefatos de leitura: o relatório da demanda e o relatório da unidade cívica, com o órgão responsável por categoria nos três níveis federativos.
Casos extremos (urgência crítica) são tratados pela classificação de risco: uma demanda com urgência crítica recebe peso adicional no ranking, permitindo que suba de posição independentemente da distribuição de capacidade.
Ciclos
- Re-ranqueamento varia por nível: semanal/quinzenal no nível 1 até semestral no nível 4+
- Reajuste do peso situacional da unidade cívica: a cada 18 meses (alinhado aos ciclos de atuação)
- Avaliação pós-execução: 2 e 6 meses, 1 e 5 anos após conclusão
- Manutenção programada: projetos concluídos podem gerar demandas de manutenção em intervalos definidos pelo responsável técnico. A demanda entra automaticamente no pipeline, vinculada ao projeto original
Cada agenda ativa tem um conselheiro relator. A execução e seu método são específicos do poder executivo responsável. Cabe ao conselheiro relatar à gestão o que ocorre. Cabe à gestão estruturar os dados e retornar via timeline e gráficos o caminhar da demanda.
Integridade do mapeamento
O sistema depende de dados gerados por cidadãos. Três problemas são tratados explicitamente:
- Cobertura insuficiente: índice de cobertura por região (demandas mapeadas / população estimada). Regiões abaixo do limiar recebem status “subrepresentada” e dados com menos validadores recebem status “aceitação provisória”. O modelo soma mapeadores profissionais de campo nas regiões de baixa participação, porta a porta, nos moldes dos recenseadores do IBGE.
- Dados conflitantes: divergência gera status “em disputa”, não rejeição. A resolução é do coletivo: validadores adicionais sorteados ou verificação presencial, conforme o assunto e as proporções. Critério de aceitação plena: maioria qualificada (dois terços dos validadores). O desenho das validações se ajusta ao longo do tempo com dados reais, dentro do ciclo de parametrização.
- Manipulação coordenada: âncora de identidade verificada (CPF/gov.br). Monitoramento de padrões anômalos (burst temporal, co-validação seletiva, múltiplas identidades no mesmo dispositivo). Boa parte das inserções e validações exige GPS ativo, com a localização verificada no momento da ação. Cobre também a manipulação coordenada externa, não apenas grupos internos. Todo histórico é público — a transparência radical é ela mesma mecanismo de dissuasão.
Mecanismos de indução de comportamento
Premiação, Coerção, Conscientização e Soluções técnicas.
Transparência e sobrecarga informacional
Transparência radical não significa que todo dado fica exposto da mesma forma para todo mundo. Significa que nada é ocultado e que o histórico completo está sempre disponível para auditoria.
O sistema opera em camadas: dados brutos acessíveis para quem quiser consultar; acima deles, módulos de categorização e agregação produzem dashboards, rankings e indicadores; acima disso, projetos e relatórios produzidos por analistas, pesquisadores ou pela comunidade. O software é open source. A sobrecarga informacional é tratada com múltiplas entradas, não com filtro do que aparece.
8. Parametrização
Seção intitulada “8. Parametrização”Os parâmetros de priorização são criados por universidades e centros de pesquisa — nunca por políticos.
- Criação: consórcios acadêmicos
- Validação: comitês técnicos temporários sorteados (pesquisadores, técnicos do Estado, especialistas). Função técnica tem definição específica: cargo com atribuições regulamentadas em lei ou decreto, independente de quem ocupa. Cargos de confiança livre sem atribuições regulamentadas não são considerados função técnica.
- Atualização: periódica ou por gatilho (novo censo, pandemia, mudança legal)
Votação não decide a fórmula — decide se um parâmetro entra em uso e qual peso relativo dentro de um intervalo técnico. Quatro camadas: pesquisadores votam no método, técnicos na aplicabilidade, cidadãos no peso relativo percebido, conselhos de unidade cívica no ajuste local.
Os valores iniciais concretos ficam no Apêndice C (Parâmetros) de rede_civica.md: parâmetros do modelo e valores efetivos do MVP, cada um com fonte e mecanismo de revisão. Servem apenas como insumo de partida. O ciclo completo se monta conforme as fases avançam: encomenda de estudos e bolsas, seleção de profissionais, votação e aplicação.
9. Votação
Seção intitulada “9. Votação”Votação é mecanismo pontual de legitimação, não o centro do sistema. Responde a 4 tipos de perguntas:
- Priorização entre alternativas já estruturadas
- Validação ou rejeição de decisões relevantes
- Correção de rumos quando o sistema erra
- Autorização de mudanças de regra
Varia por nível: micro e local fazem priorização e ajustes finos; municipal e metropolitano validam agendas consolidadas; regional e nacional decidem parâmetros, diretrizes e leis do sistema.
Internamente, instituições debatem → votam → produzem parecer único com dissenso documentado. O sistema não busca unanimidade, busca decisão clara com processo justo.
10. Infraestrutura cívica digital
Seção intitulada “10. Infraestrutura cívica digital”O sistema é concebido como infraestrutura pública, não como aplicativo comum.
Aberto (100%)
- Código-fonte completo
- Algoritmos de sorteio e priorização
- Pipelines de IA
- Schemas de dados e regras de validação
- CI/CD, builds e versões
Fechado por obrigação
- Banco de dados com dados pessoais
- Chaves criptográficas
- Segredos de infraestrutura
Código é público. Dados são protegidos. Processos e resultados são verificáveis.
11. Validação de vínculo e sistema de pontos
Seção intitulada “11. Validação de vínculo e sistema de pontos”Validação
Vínculos (moradia, emprego) são validados por múltiplos mecanismos combinados: IA para análise de documentos, validações sociais cruzadas, verificações presenciais sorteadas, comprovação de presença (GPS). O sistema registra apenas: status (válido/inválido), método, data/validade e hash da evidência.
Pontos e reputação
Pontos ≠ reputação — são métricas independentes.
- Ações digitais (votar, comentar, revisar): poucos pontos, frequentes
- Ações híbridas (validar informação, verificar serviço): pontuação média
- Ações presenciais (ir ao local, registrar observação): pontuação alta + peso reputacional temporário
Pontos não dão poder político — dão incentivo operacional. Ninguém escolhe o que valida. Validadores são sorteados por proximidade geográfica, histórico confiável e ausência de vínculo direto. Divergência explícita vira sinal, não erro. O sistema expõe processo, não “quem está certo”.
Pontos não são moeda: não se convertem em dinheiro nem são transferíveis entre usuários. Conversão monetária criaria incentivo de farming e comprometeria a confiabilidade do dado. O incentivo primário é ver a demanda resolvida; pontos são camada complementar de reputação (selos, histórico, prioridade em capacitações e funcionalidades). Desenho exato a definir em módulo separado.
12. Uso de IA
Seção intitulada “12. Uso de IA”IA é usada como camada de redução de atrito, nunca como autoridade decisória.
Funções permitidas: transformar texto/áudio/anexos em registros estruturados, traduzir legendas de imagem, gerar resumos cronológicos e resumos agregados, concatenar o caminho de resolução em dossiê histórico, padronizar linguagem neutra, classificar ações/áreas/riscos/status, sugerir próximos passos, detectar pendências.
Limites explícitos: IA não decide, não prioriza, não executa, não publica sem revisão humana.
Na moderação de conteúdo, a IA bloqueia imagem NSFW por limiar e sinaliza pessoa, enquanto a denylist de texto sinaliza termos. A mesma denylist cobre o relato do conselheiro na publicação, digitado ou transcrito, e o relato sinalizado nasce oculto até a decisão. A revisão é humana e reativa, com decisão auditável e histórico append-only por item, com decisão, motivo, moderador, data e reversão. Aprovar libera o conteúdo na vitrine. Bloquear mantém o conteúdo oculto, sem apagar a mídia, e pode ser revertido. Remover apaga a mídia e limpa o texto dos registros, sem reversão, reservado a conteúdo claramente ilegal; o relato não aceita remoção.
Todo output da IA é marcado como automático, versionado e mantém acesso ao conteúdo bruto. Distingue fato de inferência.
13. Transparência e integridade
Seção intitulada “13. Transparência e integridade”- Todos os eventos relevantes geram logs imutáveis (append-only)
- Nada é apagado; tudo é versionado
- Exceção ao append-only: conteúdo ilegal removido pela moderação é apagado do armazenamento e dos registros. O log mantém o evento da remoção e o hash do conteúdo, nunca o conteúdo
- O sistema expõe processos, não pessoas
- Rastro de quem fez o quê, quando e com qual versão do código
A confiança não vem de discurso — vem de verificação pública contínua.
Exposição jurídica mapeada (detalhe em rede_civica.md, seção “Relação com o ordenamento jurídico”):
- LGPD × log imutável: o barramento registra o processo, nunca o dado pessoal. Conteúdo pessoal fica em armazenamento próprio, protegido por chave criptográfica; eliminar a chave atende ao direito de eliminação sem tocar no histórico de eventos.
- Irredutibilidade salarial (CF art. 7º, VI): o nivelamento da razão 10x é transição (congelamento do topo, crescimento da base, acordo coletivo quando houver redução), não corte unilateral.
- Personalidade jurídica: unidade cívica que movimenta recurso precisa de forma jurídica (associação civil sem fins lucrativos, CNPJ, estatuto, prestação de contas). A associação responde pelo caixa.
- Segurança de quem participa: registros públicos são pseudonimizados; identidade verificada fica no sistema, não na camada pública. Demandas em áreas de risco podem ser registradas sem identificação pública do autor. Conselheiro pode recusar demanda por risco pessoal sem penalização. Em territórios de alto custo de exposição, o sistema opera em modo de discrição: o mapa público mostra apenas agregados, o ponto exato fica com a gestão e o conselheiro, e a divulgação pode ser retardada até a resolução.
14. Relação com o Legislativo
Seção intitulada “14. Relação com o Legislativo”Estrutura atual
O legislativo brasileiro tem 4 funções centrais: legislativa, fiscalizadora, orçamentária e representativa. Funciona em três níveis federativos:
- Municipal (Câmara de Vereadores): interesse local, fiscalização do Prefeito, orçamento municipal
- Estadual (Assembleia Legislativa): competência estadual, fiscalização do Governador, orçamento estadual
- Federal (Congresso Nacional): âmbito nacional, bicameral — Câmara dos Deputados (proporcional por estado) e Senado Federal (3 por estado independente de população)
Somente no âmbito federal existe casa revisora. Propor lei não é exclusividade de deputados: podem fazê-lo parlamentares individualmente, comissões temáticas, o Presidente, o STF, tribunais superiores, o Procurador-Geral da República e os próprios cidadãos via iniciativa popular (1% do eleitorado em pelo menos 5 estados).
Problemas do modelo atual
- Demandas chegam por lobby, não por dados
- Vereador ou deputado “representa” milhares sem rastreabilidade real; discurso substitui dado
- Controle do orçamento funciona como moeda de troca e mecanismo de bloqueio
O novo modelo
A Parte IV do compilado é horizonte institucional, não plano operacional: nada dela é pré-requisito para o sistema operar.
No novo modelo, as demandas nascem nas unidades cívicas, são priorizadas por parâmetros públicos e chegam ao Estado já estruturadas. O legislativo deixa de ser porteiro informal da agenda pública.
Em nenhum momento o legislativo autoriza o início de uma agenda. Ele não barra agenda, não escolhe ordem e não controla caixa.
Passa a atuar como núcleo técnico-normativo:
- Auditoria contínua do sistema
- Detecção de inconsistências e fraudes
- Tradução de demandas recorrentes em normas (gatilho normativo, não automático)
- Fiscalização do Executivo com base em dados
- Garantia de coerência e estabilidade institucional
A função orçamentária (PPA, LDO, LOA) permanece como função constitucional do Legislativo. Mudar isso exige Emenda Constitucional com 3/5 dos votos em dois turnos em ambas as casas. O modelo não confronta isso diretamente no início. O caminho é tornar o orçamento progressivamente transparente — com demandas categorizadas, custos estimados e rastreáveis, prioridade justificada e ciclos de avaliação fechados — até que a barganha orçamentária perca sentido prático.
A figura do assessor parlamentar de livre nomeação desaparece. É substituída por infraestrutura técnica institucional única: especialistas em direito, políticas públicas, economia e auditoria, selecionados por critérios técnicos. Capacidade técnica pública, não privada e fragmentada por gabinete.
15. Relação com empresas
Seção intitulada “15. Relação com empresas”Proposta em duas rupturas sequenciais, via pressão social e reputacional — não por decreto.
Primeira ruptura: transparência total da estrutura e do processo — cargos, atribuições, salários por cargo, processos, excedente. A unidade de exposição é o cargo e o agregado, nunca a pessoa. Em um primeiro momento não é necessário mudar o processo, apenas exibir a caixa-preta que todos buscam esconder.
Segunda ruptura: transferência do excedente para o sistema, com resultado visível no território. O excedente retorna ao fomento e volta como organização criada no gap, obra entregue e serviço em operação. A segunda ruptura só é sustentável se esse resultado for real e rastreável.
Divisão do excedente em três destinos: caixa interno da empresa, participação igual dos trabalhadores e retorno ao sistema (fomento). Valores iniciais de referência: 40/40/20, a calibrar com dados reais. A unidade cívica não recebe o excedente em caixa. Vê o resultado dele no território.
A estrutura funcional de comando é mantida (C-level, gerência, operação). O que muda é quem senta na direção e a serviço de quê: a diretoria passa a ser nomeada pela soberania da empresa (trabalhadores e unidade cívica), não pelo capital, e opera dentro dos limites do estatuto (detalhe na subseção “Estatuto, soberania e diretoria”, abaixo). Muda também a política salarial: a razão máxima entre o menor e o maior salário tem limite, ponto de partida de 10x, parametrizável e calibrável com dados reais ao longo do tempo.
A adesão começa pelas pequenas empresas e entusiastas — não há decreto de socialização compulsória. A pressão sobre médias e grandes empresas cresce à medida que o sistema acumula evidência e confiança.
A socialização de uma empresa já existente segue os mesmos princípios. Como a empresa já opera, o mapeamento dela está presente e os quatro planos se constroem a partir do funcionamento real. A diferença fica no plano de implementação: reorganização e redistribuição interna para integrar a rede cívica.
Organizações que não atendem nenhuma demanda social e existem apenas para extrair recursos ou explorar vulnerabilidades ficam fora do escopo de socialização. Para essas, a lógica é capturar o fluxo que geram e redirecioná-lo para ações sociais correspondentes.
Financiamento de novas organizações
O gatilho para criar uma organização nova tem dois caminhos, com um critério comum: a integração à rede cívica. O primeiro é o gap mapeado, sobre o qual a incubadora age. O segundo é a iniciativa da sociedade organizada: um grupo do território propõe a criação de uma organização, que entra no mesmo processo de incubação. O financiamento não precisa vir do banco social: o grupo pode reunir o próprio caixa ou investimento para promover a iniciativa, mantidos o mesmo critério de integração e a transparência do recurso. Onde há gap documentado, há argumento concreto para abrir uma organização e base para financiá-la com critério social, não especulativo. O financiamento segue o dado: demanda mapeada + capacidade técnica + viabilidade de execução justificam o crédito.
A criação de organizações novas envolve dois órgãos. A incubadora social, estrutura técnica regional da gestão, estuda e produz o plano de incubação em quatro partes: negócio, organizacional, operação e implementação. O banco social concentra o caixa de múltiplas fontes em dois fundos segregados: o fundo de incubação, reativo ao mapeamento, e o fundo de iniciativa social. Libera o investimento em tranches contra marcos, sob regras de portfólio. A priorização é em duas camadas: o índice de incubação ordena a fila de planos; as regras de portfólio alocam o capital. Organizações de classe A devolvem capital pelo fluxo permanente de excedente (40% ao fomento). Organizações de classe B não geram excedente e são mantidas sob teto de custeio. A escada jurídica do banco social: caixa segregado dentro da gestão, depois fundo patrimonial (Lei 13.800/2019), no horizonte longo cooperativa de crédito regulada pelo Banco Central (o caminho da Caja Laboral, Mondragón).
Argumentos contra e respostas (resumo)
- Risco e capital inicial: financiamento segue o dado, não o investidor. Capital com destino rastreável, orientado pela demanda mapeada.
- Quem direciona a empresa: a soberania (trabalhadores e unidade cívica) pertence à sociedade e nomeia a diretoria; a diretoria dirige a estratégia dentro do estatuto. Tal qual instituições estatais, empresas socializadas são guiadas por propósito.
- Por que haveria engajamento: redistribuição concreta no bolso de quem trabalha é a resposta imediata. Transparência dos valores é o combustível contínuo.
- Empecilhos técnicos, políticos e legislativos: os técnicos não justificam anulação. Os políticos e legislativos entram na mesma esfera da pressão social organizada.
Empresa socializada — estrutura interna
Uma empresa socializada é extremamente organizada e transparente. Hierarquicamente não muda sua estrutura funcional. A principal diferença é no nível de detalhe dos cargos e suas funções — totalmente replicável.
Possui todos os processos mapeados, transparentes, eficientes, rastreáveis. Salários equilibrados respeitando a razão 10x (calibrável). Canais abertos de feedbacks e melhorias. Ciclos de reavaliação para atualização contínua de processos. Objetivos claros de atuação e restrições sempre visíveis.
Fluxo interno: levantamento de demandas → agregador de agendas → ranqueamento → execução → avaliação.
Canal permanente de feedback de cargo: quem exerce cada função reporta desvio entre a descrição do cargo e o trabalho real, ou sobrecarga de demanda. Um cargo responsável (direção, administrativo ou RH) resolve com uma de três saídas: contratar, criar cargo novo ou incorporar a demanda ao cargo existente. Como tudo é transparente, decidir se a demanda cabe é cálculo determinístico sobre folha e excedente. Referência: as tensões da holacracia.
Horizonte do caixa público: a empresa nasce com caixa para os primeiros 24 meses de operação. Depois, a referência é manter caixa para 24 meses da configuração vigente. Entre 8 e 3 meses de caixa restante, a empresa avisa a todos. Se segue entregando o estatuto e não há alternativa consolidada, a incubadora ou a unidade cívica reabastece o caixa por mais 2 anos. Caso contrário, abre-se o fechamento. Nos últimos 3 meses, com fechamento decidido, salário integral e liberação das funções para realocação.
Jornada: 4 horas de trabalho efetivo remuneradas como 6. As 2 horas a mais correspondem ao deslocamento, preferencialmente até 30 minutos por trecho, e à refeição, de 1 hora. Salários publicados são recebidos integralmente, sem deduções; a empresa arca com todos os encargos, inclusive a parte do trabalhador. A demanda que a empresa supre pode ser direta ou elo da cadeia de suprimentos. A maximização é orientada à qualidade e à redução do custo operacional, para baratear o consumo à sociedade.
Coordenação setorial: toda empresa socializada nasce integrada à coordenação da sua categoria. A coordenação é instituição social que alinha e compartilha informação entre empresas da mesma categoria, redistribui mercadorias entre regiões, regula a oferta pela distribuição da categoria, promove intercâmbio de trabalhadores e alinhamento oferta/demanda. Coordenações de mesorregiões diferentes se comunicam e formam a malha. Não substitui o sindicato, que segue como órgão de defesa de quem trabalha. O objetivo é a abolição da anarquia de produção: alinhar a produção social com a apropriação social, eliminando o antagonismo entre produção social e apropriação capitalista individual.
Estatuto, soberania e diretoria
Toda empresa socializada tem um estatuto que define por que existe e qual demanda supre, com cargos e fluxos delimitados. O objetivo final do estatuto é, por desenho, tecnicamente inalcançável (lógica de meta esticada): sempre cabe ir aquém. Sucesso é progresso contínuo, não bater um alvo. O lucro é restrição de solvência, não objetivo: piso necessário para fechar o ciclo, não o que se maximiza.
Três papéis, separados (no capitalismo se concentram no dono do capital):
- Soberania: de quem é a empresa. Da sociedade (trabalhadores + unidade cívica). Detém o porquê, guardado no estatuto.
- Direção: quem aponta o rumo. A diretoria (equivalente ao C-level) decide estratégia. Detém o para onde.
- Execução: quem move cada parte. Gerência e operação. Detém o como.
Referência real: propriedade em custódia (steward-ownership, ex.: Bosch, Zeiss) — separa direito de controle de direito ao lucro, com uma golden share que veta desvio de propósito. Na empresa socializada, esse veto pertence à soberania; a diretoria tem liberdade total de estratégia exceto a de trair o estatuto.
Quem dirige: sorteio não serve para direção (exige competência). O filtro é teste de competência e idoneidade (referência: fit-and-proper de bancos centrais), que gera um pool de elegíveis. A soberania nomeia a diretoria desse pool, com mandato e recall. Competência define quem pode; soberania define quem entra. Empresas de incubadora começam com direção interina e transição agendada para a diretoria permanente.
Como a diretoria decide: colegiado, um diretor = um voto de igual peso. Três tempos: (1) alinhamento prévio / construção de consenso (referência: nemawashi); (2) voto com prazo determinado; (3) compromisso com o resultado — decidido, todos seguem, divergir depois é sair, não sabotar (referência: disagree and commit). Fixado o rumo, a diretoria define a intenção (para onde e por quê) e cada posição decide o como (referência: comando por intenção / Auftragstaktik). Analogia do barco.
Divergências e escrutínio: votos vencidos são registrados e funcionam como previsão (calibram a diretoria ao longo do tempo). Tensão com a transparência radical: estratégia não pode ser pública em tempo real (concorrente não-socializado). Saída: separar registro de visibilidade — log imutável no momento da decisão, abertura pública temporizada, após execução ou prazo fixo (referência: atas de banco central). Avaliação olha primeiro o processo (considerou estatuto, alternativas, premissas, dissenso), não só o resultado; boa decisão pode ter mau resultado por fatores fora de controle. Quatro contrapesos contra oligarquia técnica: golden share do estatuto, recall pela soberania, rotação de mandato e abertura do registro no fim do embargo.
Escala: nada disso se aplica a empresa de 2 a 10 pessoas. Estatuto formal, diretoria colegiada e teste de competência fazem sentido no maior porte; na micro/pequena, estatuto é declaração curta de propósito e direção é quem toca o negócio. A separação completa entre soberania, direção e execução aparece nas organizações maiores.
Conselho interno da empresa
Distinto do conselho das unidades cívicas. Existe dentro da organização e responde à lógica da empresa. Tem 3 funções:
- Transparência operacional: acesso contínuo à contabilidade, à folha salarial por cargo, a contratos relevantes e às decisões estratégicas que impactem emprego, território ou unidade cívica. Não decide, relata.
- Relatoria social interna: demandas internas dos trabalhadores, conflitos entre eficiência econômica e impacto social. Funciona como espelho público, não como tribunal.
- Elo com a unidade cívica: traduz a empresa para a lógica da unidade cívica e vice-versa.
O conselho não manda no CEO, mas não pode ser ignorado. Não negocia salário, não interfere em promoção, não participa de decisão estratégica. Rotatividade obrigatória para evitar captura e maximizar pessoas capacitadas.
Escala por tamanho:
- Micro e pequena: modelo mínimo com ao menos 1 relator para registro básico e ponto de contato com a unidade cívica. Nunca zero transparência.
- Médias: 3 a 5 pessoas, composição mista (sorteio interno e indicação técnica).
- Grandes: conselho formal com regras claras de acesso a dados, publicação de relatórios e prazos de resposta da diretoria.
Critérios para sorteio: tempo mínimo na empresa, ausência de conflito direto de interesse, capacitação básica fornecida pelo sistema.
Capacitação obrigatória cobre: leitura institucional básica (balanço, DRE, fluxo de caixa), leitura de impacto social (indicadores de emprego, renda, rotatividade), registro técnico neutro (linguagem descritiva, separar fato de interpretação) e ética de conflito de interesse. Certificação simples, não vitalícia.
16. Ministérios e Secretarias
Seção intitulada “16. Ministérios e Secretarias”Como toda a Parte IV do compilado, esta seção descreve horizonte, não plano operacional.
No novo modelo, deixam de ser centros de definição de agenda e arenas de negociação política. Passam a ser unidades técnicas de execução.
Recebem demanda legitimada, escopo claro, indicadores esperados e prazos visíveis. Em troca, devolvem alternativas técnicas, custos, cronogramas, riscos e dependências institucionais. Tudo público, versionado e rastreável.
Cada ministério mantém seu próprio ERP e detalhes específicos. Na gestão aparece apenas o resumo consolidado das agendas.
A figura central deixa de ser o ministro político e passa a ser uma direção técnica de execução — gerente de projetos complexos, integrador multidisciplinar e responsável operacional rastreável.
Funções centrais no novo modelo:
- Transformar demandas legitimadas em planos executáveis
- Escolher método, não objetivo
- Coordenar recursos humanos, contratos e prazos
- Gerenciar riscos e dependências
- Produzir evidência pública de execução
A supervisão de entidades vinculadas permanece, com rastreabilidade pública de desempenho. A regulação setorial segue como função técnica. A articulação política com o Legislativo perde a razão de ser como negociação de agenda e passa a ser interface de conformidade normativa.
Avaliação em ciclos formais: curto, médio e longo prazo, com participação ponderada da população, técnicos e instituições.
Mecanismos de remuneração, reconhecimento e incentivo institucional para bons resultados serão implementados. Resolver bem gera capacidade, prestígio e recursos para resolver melhor. O efeito esperado é migração do medo de errar para responsabilidade mensurável.
17. Vanguarda
Seção intitulada “17. Vanguarda”Mecanismo de preservação estrutural do sistema — não governa, garante que o sistema não seja cooptado, distorcido ou personalizado.
Duas frentes:
- Vanguarda do software: guardiã da arquitetura e dos princípios técnicos, defesa contra captura técnica, curadoria de parâmetros e métodos, formação técnica contínua, capacidade de veto técnico. O veto tem escopo definido: qualquer alteração que reduza transparência, dificulte auditabilidade, centralize decisão que era distribuída ou distorça os princípios fundadores pode ser bloqueada. Todo veto é público e justificado. Composição por profissionais de diferentes áreas (desenvolvimento, arquitetura, segurança, políticas públicas). Ciclo de atuação definido, não vitalício.
- Vanguarda das unidades cívicas: guardiã cultural e institucional (não ideológica no sentido partidário), anticorpos contra degeneração política, formação cívica, mediação filosófica não decisória, continuidade de longo prazo.
18. Estratégia de implementação
Seção intitulada “18. Estratégia de implementação”A roda não gira inteira de uma vez. O princípio é provar que um ciclo mínimo fecha antes de escalar:
- Uma necessidade real
- Um grupo pequeno legitimado
- Um processo visível
- Uma entrega verificável
- Um rastro público
Ninguém precisa “acreditar” — todos precisam ver.
O que cada ator ganha sem precisar confiar cegamente: cidadão ganha visibilidade e voz concreta; instituição ganha evidência pública; pesquisador ganha dado real; influente ganha causa sólida; Estado ganha pressão organizada.
Instituições não financiam ideias, financiam processos previsíveis. Influentes só entram quando a narrativa já existe. O primeiro combustível é a atenção estruturada, não o dinheiro grande.
O que já foi tentado (seção própria em rede_civica.md, Parte V): o modelo se posiciona frente ao estado da arte. Colab.re/FixMyStreet provam a captura, mas o ciclo não fecha sem resposta do poder público. Decidim/Consul/Brasil Participativo/vTaiwan provam a infraestrutura digital aberta, mas a participação decai sem entrega verificável. O orçamento participativo de Porto Alegre provou a priorização popular e morreu por depender do patrocínio do governante. Assembleias sorteadas (Irlanda, França) provam o sorteio — a estratificação demográfica delas é incorporada à parametrização do sorteio — e mostram que parecer sem compromisso de resposta é engavetado. Mondragón prova que teto salarial não elimina eficiência, mas o cooperativismo não conversa com o território como sistema. A tese do modelo: cada experiência validou um componente isolado; o novo é o ciclo fechado entre eles. O roteiro prevê, a longo prazo, a criação de toda a cadeia de suprimentos em empresas socializadas (engenharia, construtora, metalurgia), para que a demanda não morra esperando o Estado.
Falhas comuns e antídotos
| Falha | Antídoto |
|---|---|
| Começar grande demais | Ciclo mínimo, micro-unidade cívica, entrega feia porém real |
| Legitimidade questionada | Sorteio, progressão por experiência, regras claras |
| Engajamento heroico exigido | Participação pontual, assíncrona e focada |
| Ninguém executa | 1 conselheiro = 1 demanda = 1 rastro público |
| Falta de confiança | Parâmetros públicos, logs imutáveis, histórico |
| Confronto político prematuro | Pressionar com dados, não substituir |
| App-first | Infraestrutura cívica, não aplicativo salvador |
| Personalização | Processo acima de pessoas |
| Medir impacto errado | Medir processo concluído, não engajamento bruto |
19. Escalada por fases e gatilhos
Seção intitulada “19. Escalada por fases e gatilhos”O mapa sobe antes do conselho subir. As estimativas de tempo são ordem de grandeza, não prazo-meta. São os gatilhos, não o calendário, que autorizam o próximo passo.
Fase 1 — Coleta e validação local
Ênfase total em mapeamento: captura de dados, validação cruzada, categorização e padronização. Agendas locais, baratas e executáveis. O que se cria aqui é densidade de dados, não poder.
O ponto de partida são entusiastas — pessoas que querem ver sua demanda de bairro sair do papel. Não precisam de formação técnica nem de experiência prévia. Esse grupo inicial não representa o sistema maduro — representa o experimento que testa se o ciclo funciona na menor escala possível.
Avança quando múltiplos municípios tiverem ciclos completos de demanda documentados e comparáveis entre si.
Fase 2 — Padrões emergentes e escala regional
Dashboards regionais, rankings comparativos, gargalos recorrentes. Primeiras agendas intermunicipais e intersetoriais. Começa quando os dados da Fase 1 já permitirem comparação entre unidades cívicas.
Fase 3 — Conselho nacional
Não há data. O conselho nacional nasce quando houver base empírica suficiente para leitura sistêmica: municípios com mapeamento maduro, padrões documentados em escala, demandas com ciclos completos concluídos.
O conselho nacional nasce para interpretar padrões sistêmicos, não para representar territórios. O que sobe primeiro são indicadores agregados, padrões recorrentes e gargalos estruturais. O que sobe depois são os conselhos formais e a coordenação nacional.
O sistema não escala como política tradicional. Escala como ciência, infraestrutura, estatística e logística. A legitimidade vem da repetição, não do anúncio.
20. Falhas esperadas e pontos críticos
Seção intitulada “20. Falhas esperadas e pontos críticos”O sistema assume falhas como parte estrutural, não como exceção:
- Fraude ou frustração na validação de vínculo
- Manipulação de inputs de priorização
- Gargalo humano (tempo, desgaste, abandono)
- Atraso estrutural do mundo real (licitações, contratos)
- Risco de assédio aos relatores
- Disputas sobre interpretação de dados ou outputs de IA
- Escalabilidade operacional (suporte, moderação, auditoria)
- Resistência política e tentativa de captura institucional
21. Contrato social
Seção intitulada “21. Contrato social”O sistema oferece: decisões baseadas em realidade, transparência total, participação direta e contínua, poder distribuído por nível, aprendizado coletivo documentado.
O sistema exige: participação mínima — ausência não gera penalização nem reduz direitos, mas quem não participa não inclui demandas, não valida e não vota; o sistema não é vidente, e regiões sem participação ativa demoram mais para aparecer no mapa. Compromisso com a verdade (errar é aceitável, manipular não) e respeito ao processo coletivo (discordar é legítimo, sabotar não).
Sem participação, não há legitimidade. Sem transparência, não há confiança. Sem dados, não há boa decisão.
22. Arquitetura técnica — O Formigueiro
Seção intitulada “22. Arquitetura técnica — O Formigueiro”O Formigueiro é o nome da arquitetura técnica do sistema. É orientada a eventos: eventos acontecem, módulos (colônias) reagem.
Núcleo
- Event Bus (Feromônios): publica eventos, garante ordem, persiste e reexecuta. No MVP usa
EventEmitter2; Kafka segue como referência de escala. - Registry Module (Mapa do Formigueiro): define tipos de eventos, expõe contratos, versiona schemas. Não executa lógica — define o idioma comum.
Colônias (Módulos Reativos)
Cada módulo escuta eventos, processa localmente, emite novos eventos e não coordena o todo.
Regras duras:
- Colônias não importam entre si
- Colônia nunca escreve no banco de outra colônia
- Comunicação só via eventos
- Dependência sempre somente do core
Cada colônia tem: estado próprio (write model), consumidores de evento, produtores de evento e projeção local (opcional).
Grupos de colônias
As 42 colônias se organizam em cinco grupos por afinidade de domínio. A contagem é a do Apêndice B: cada sub-colônia conta como módulo próprio (D-1a a D-1d e D-6a e D-6b), e o N-0d Direitos do Titular fica fora por ser módulo transversal do núcleo, sem ficha no Apêndice B.
- Núcleo (N): infraestrutura de comunicação e regras — N-0a Event Bus, N-0b Registry, N-0c Observabilidade
- Demanda (D): pipeline completo de uma demanda pública, da captura à consolidação institucional — D-1a a D-24
- Empresa (E): cadastro, transparência e simulação das organizações — E-1 a E-5
- Lugar (L): mapeamento, validação e análise da realidade territorial — L-1 a L-5
- Cidadão (C): identidade e cadastro dos participantes — C-1
Os fluxos de empresa e lugar correm em paralelo ao pipeline principal de demandas. Não interferem no ranking nem no ciclo de conselheiros. A localização de uma organização é resolvida pelas colônias de lugar e consumida pelas de empresa via barramento.
Fases de evolução do software
Fase 1 — MVP: fecha o ciclo completo local. Inclui o núcleo (N-0a, N-0b, N-0c), todo o pipeline de demanda da captura à transparência (D-1a a D-7), a detecção de duplicidade com heurística determinística e confirmação coletiva (D-12), a memória de caminhos (D-24, antecipada da Fase 3), o cadastro de cidadãos embutido na captura (C-1), o cadastro e georreferenciamento de lugares (L-1, L-2), o subconjunto social da validação de lugares (L-3: confirmação automática, confirmação social por presença, denúncia, retirada pelo autor e reativação por operador) e as três colônias iniciais de empresa: cadastro institucional (E-1), transparência salarial (E-2) e simulação econômica (E-3). Objetivo: demanda entra, é categorizada, ranqueada, agendada, recebe conselheiro e tem andamento público. A moderação de conteúdo (D-1d) fecha a entrada: a D-1c classifica imagem (NSFW e pessoa), a D-1b aplica a denylist de texto, o que é sinalizado entra na fila de revisão e a decisão é humana e auditável. Aprovar libera o conteúdo na vitrine; bloquear mantém o conteúdo oculto, sem apagar a mídia, e pode ser revertido; remover apaga o conteúdo do armazenamento e dos registros, sem reversão, reservado a conteúdo claramente ilegal.
Fase 2 — MLP: adiciona robustez institucional e escala territorial. Demanda: manutenção programada, validação de vínculo, votação, anti-fraude, classificação de risco, agregação multinível, pesquisa e exportação de dados, integridade criptográfica e controle de mandato e progressão (D-8 a D-11 e D-13 a D-17). A similaridade semântica da duplicidade (embeddings) fica para a Fase 2; o MVP usa heurística determinística. Lugar: métodos restantes da validação e qualidade (reincidência temporal, validação presencial sorteada e revalidação periódica), análise de cobertura e gaps, incubação social (L-4 e L-5). Empresa: impacto territorial e mapeamento de estrutura interna (E-4, E-5). Cidadão: C-1 como serviço independente.
Fase 3 — Consolidação: prepara o sistema para pressão institucional de longo prazo. Demanda: simulação de cenário, governança de parâmetros, anti-abuso e resistência a manipulação coordenada, monitoramento executivo, projeções independentes e snapshot público versionado (D-18 a D-23).
Colônias de empresa
- E-1 Cadastro institucional: registro, porte, setor e associação territorial da organização
- E-2 Transparência salarial: autodeclaração da folha por cargo, sem nomes, diagnóstico da razão entre menor e maior salário, simulação de redistribuição sem aumentar custo total; salários nunca expostos por pessoa
- E-3 Simulação econômica: cálculo do excedente a partir de receita e custos declarados, divisão parametrizada entre caixa interno, trabalhadores e retorno ao sistema (fomento)
- E-4 Impacto territorial (Fase 2): cruza o excedente da E-3 com as demandas prioritárias do ranking das UCs do território
- E-5 Mapeamento de estrutura interna (Fase 2): agrega funções declaradas, detecta sobreposições e lacunas entre cargos formais e atividades reais
Colônias de lugar
- L-1 Cadastro de lugares: entrada do dado de lugar, validação mínima, dado bruto preservado
- L-2 Georreferenciamento e tipificação: resolve a unidade cívica e enriquece o tipo com o OpenStreetMap no MVP; as bases de CNPJ e CNES entram na Fase 2
- L-3 Validação e qualidade: confirma se o lugar existe. No MVP opera pelo subconjunto social e automático: confirmação automática pela tipificação da L-2, 3 confirmações de cidadãos distintos em 700 m, 3 denúncias para disputar, retirada pelo autor e reativação por operador. Reincidência temporal, validação presencial sorteada e revalidação periódica ficam para a Fase 2.
- L-4 Análise de cobertura e gaps (Fase 2): cruza lugares validados com parâmetros de cobertura mínima, detecta gaps e os correlaciona com demandas
- L-5 Incubação social (Fase 2): converte gap documentado em processo de criação de organizações socializadas, com o plano de incubação como artefato. O banco social (Fase 2) mantém caixa, tranches e classes A/B.
Colônia de cidadão
- C-1 Cadastro de cidadãos: fonte da verdade da identidade e autodeclarações de perfil. Gerencia provedores de autenticação. Não valida vínculo (D-9). Fase 1: tabela embutida na D-1a. Fase 2: serviço independente.
23. Natureza intelectual do projeto
Seção intitulada “23. Natureza intelectual do projeto”Classificação: modelo teórico-aplicado, arquitetura institucional alternativa, framework de governança sociotécnica.
Estágio atual: proposta consistente, operacionalizável, ainda não testada empiricamente.
O sistema não depende de líderes iluminados, ideologia, coerção legal ou confiança pessoal. Depende de processos explícitos, dados públicos, responsabilidade rastreável e escrutínio contínuo.
Não substitui o Estado. Substitui a política opaca como mecanismo central de coordenação.